Há uma doença epistemológica que assola a cristandade contemporânea. Não se trata de uma negação explícita do Credo Apostólico, nem de uma rejeição formal da inerrância das Escrituras. O mal é mais sutil, mais pernicioso e, por isso mesmo, mais devastador. É a aceitação tácita de um dualismo que divide a realidade em dois andares incomunicáveis: o andar superior do “espiritual” e o andar inferior do “secular”.
Nesta visão esquizofrênica, Deus é o Senhor do domingo, o Monarca da liturgia e o Ouvinte das orações matinais. Mas, assim que o “amém” é pronunciado e a segunda-feira inicia, entramos em uma zona supostamente neutra, onde as regras do mercado, da academia ou da biologia operam de forma autônoma, livres da jurisdição divina. Vivemos como deístas práticos: Deus criou o mundo, mas agora Ele nos deixa “trabalhar” em paz.
Para a mente reformada, contudo, tal divisão é uma impossibilidade teológica. Os reformadores do século XVI, ao resgatarem o Evangelho das sombras medievais, resgataram também uma cosmovisão abrangente, encapsulada em uma frase latina que se tornou o lema de uma geração de gigantes: Coram Deo.
Entender Coram Deo não é apenas um exercício de arqueologia linguística; é a chave para reintegrar nossa fé fragmentada e devolver a Deus a glória que Lhe é devida em cada centímetro quadrado da existência.
I. A Etimologia e a Definição Teológica
A expressão Coram Deo é composta pela preposição latina coram — que denota “na presença de”, “diante de”, ou “sob os olhos de” — e o substantivo Deus. Literalmente, significa viver diante da face de Deus.
Mas a teologia carrega essa definição para além da semântica. Viver Coram Deo é viver a totalidade da existência sob a consciência de que:
- Estamos sempre na presença de Deus (Onipresença);
- Estamos sempre sob a autoridade de Deus (Soberania);
- Tudo deve ser feito para a glória de Deus (Doxologia).
R.C. Sproul, ao comentar sobre este tema, frequentemente nos lembrava que “não há átomos neutros no universo”¹. Se houvesse um único átomo fora da soberania de Deus, Deus deixaria de ser Deus. Portanto, Coram Deo é a resposta existencial do homem a essa soberania absoluta. É a recusa em compartimentar a vida.
II. O Contexto Histórico: A Revolução do Sacerdócio Universal
Para compreendermos a força explosiva deste conceito, precisamos olhar para o cenário contra o qual os Reformadores lutavam. A teologia medieval, influenciada por uma leitura neoplatônica, havia criado uma hierarquia de santidade.
No topo, estava a “vida contemplativa” (vita contemplativa): monges, freiras e sacerdotes que se retiravam do mundo para orar e meditar. Estes eram considerados os “atletas espirituais”, vivendo mais próximos de Deus. Na base, estava a “vida ativa” (vita activa): fazendeiros, ferreiros, mães e soldados. Suas atividades eram vistas como necessárias para a sobrevivência biológica, mas espiritualmente inferiores.
Martinho Lutero desferiu um golpe mortal nessa estrutura com a doutrina do Sacerdócio Universal de Todos os Crentes. Ao ler 1 Pedro 2:9 (“Vós sois a geração eleita, o sacerdócio real…”), Lutero percebeu que a distinção entre clero e laicato era funcional, não ontológica.
Em sua obra seminal de 1520, À Nobreza Cristã da Nação Alemã, Lutero escreve:
“Um sapateiro, um ferreiro, um camponês, cada um tem a função e a obra do seu ofício, e, no entanto, todos são igualmente sacerdotes e bispos consagrados, e cada um com sua função ou obra deve ser útil e servir ao outro, de modo que as muitas obras estejam voltadas para uma comunidade…”²
Isso mudou tudo. Se o mundo inteiro é o templo de Deus, então o trabalho do sapateiro, quando feito Coram Deo — com excelência, honestidade e gratidão —, é uma oferta litúrgica tão agradável a Deus quanto o incenso do sacerdote. Calvino ecoou isso ao descrever o universo como o theatrum gloriae Dei (o teatro da glória de Deus).³ Não há bastidores onde Deus não esteja assistindo.
III. Fundamentação Exegética: O Olhar Inescapável
A base para Coram Deo não é uma invenção filosófica, mas uma dedução necessária da revelação bíblica sobre a natureza de Deus.
1. O Deus que Vê (Salmo 139)
O Salmista Davi captura a essência do Coram Deo no Salmo 139. Ele pergunta retoricamente: “Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face?” (v. 7). O termo hebraico para “face” (panim) denota presença pessoal e atenção direta. Davi conclui que, seja no abismo (Sheol) ou nas alturas, Deus está lá.
Para o ímpio, como Jean-Paul Sartre percebeu em sua filosofia existencialista, o “olhar do outro” é um inferno, pois rouba a liberdade e objetifica o sujeito.⁴ Saber que Deus vê tudo é aterrorizante para quem deseja autonomia. Mas para o crente, saber que vivemos diante da face de um Pai onisciente é a garantia de que nossa vida tem significado, que nossa justiça será vindicada e que nosso trabalho não é em vão.
2. A Glória Como Fim (Romanos 11:36)
Paulo encerra a seção doutrinária de Romanos com a doxologia suprema: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas”. A preposição grega eis (“para”) indica direção e propósito. Se todas as coisas são para Ele, então a matemática, a culinária, a advocacia e a troca de fraldas têm um telos (propósito) divino. Viver Coram Deo é alinhar intencionalmente nossas atividades “seculares” com este propósito sagrado.
3. O Trabalho como Culto (Colossenses 3:23-24)
Talvez a aplicação mais direta esteja na exortação de Paulo aos escravos em Colossenses: “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens”. A palavra grega para “de todo o coração” (ek psychēs) significa “a partir da alma”. Paulo eleva a tarefa mais humilde e socialmente degradante da época (o trabalho escravo) à categoria de serviço direto a Cristo (Kyrios Christos). Quando varremos o chão Coram Deo, o chão se torna santo, e a vassoura, um instrumento de culto.
IV. Os Três Pilares da Vida Coram Deo
Com essa base, podemos estruturar a vida cristã autêntica sobre três pilares inegociáveis.
1. Integridade Absoluta (Viver na Presença)
O puritano John Milton, ao ficar cego, escreveu em seu famoso soneto que desejava viver “As ever in my great Task-Master’s eye” (“Como sempre sob o olhar do meu grande Senhor”).⁵ A consciência Coram Deo gera integridade.
O homem que vive fragmentado pergunta: “Alguém vai descobrir?”. O homem Coram Deo sabe que já foi descoberto. Ele não precisa de câmeras de segurança ou de supervisão gerencial para ser ético. Ele é a mesma pessoa na luz e nas trevas, porque a Luz do Mundo está sempre presente. A hipocrisia é, em última análise, uma forma de ateísmo prático — é viver como se Deus não visse o que fazemos em secreto.
2. Autonomia é uma Ilusão (Viver Sob Autoridade)
O pecado original, em Gênesis 3, foi uma tentativa de declaração de autonomia. Adão e Eva queriam ser “como Deus”, definindo o bem e o mal por conta própria. Viver Coram Deo é o arrependimento contínuo dessa pretensão.
Significa submeter nossas decisões financeiras, nossos votos políticos, nosso entretenimento e nossa sexualidade à autoridade revelada nas Escrituras. Não existe uma área “privada” onde a Lei de Deus não se aplica. Como Abraham Kuyper declarou famosamente na inauguração da Universidade Livre de Amsterdã:
“Não há um centímetro quadrado em todo o domínio de nossa existência humana sobre o qual Cristo, que é Soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!'”⁶
3. A Sacralização do Ordinário (Viver Para a Glória)
Aqui reside a beleza libertadora desta doutrina. Se Coram Deo é verdade, então não existem pessoas “comuns” nem tarefas “irrelevantes”.
A mãe exausta que se levanta pela terceira vez na madrugada para amamentar não está apenas realizando uma função biológica; ela está nutrindo uma Imago Dei (imagem de Deus) sob o olhar do Criador. O estudante que se dedica à química orgânica não está apenas buscando um diploma; está investigando a mente de Deus expressa na estrutura molecular.
Lutero dizia que Deus ama tanto o mundo que Ele mesmo ordenha as vacas — mas Ele usa as mãos da leiteira para fazê-lo. Nossas vocações são as “máscaras de Deus” (larvae Dei), por trás das quais Ele cuida de Sua criação.
Conclusão: O Desafio da Coerência
Vivemos em uma era de fragmentação. Somos pressionados a deixar nossa fé na porta da empresa, da universidade ou do parlamento. O mundo nos diz: “Tenha sua religião, mas mantenha-a privada”.
Viver Coram Deo é o ato revolucionário de recusar esse contrato. É afirmar que Cristo é Senhor não apenas da alma, mas do corpo; não apenas da Igreja, mas do cosmos. É acordar a cada manhã, olhar para o espelho e para a agenda do dia, e sussurrar a verdade que transforma a rotina em adoração: “Estou aqui, Senhor. Diante da Tua face, sob a Tua lei, para a Tua glória”.
Que possamos, pela graça, viver vidas unificadas, onde a distinção entre sagrado e secular desapareça na luz ofuscante da glória de Deus. Isso é cristianismo bíblico. Isso é Coram Deo.
Notas e Referências
- SPROUL, R.C. What is Reformed Theology? Understanding the Basics. Grand Rapids: Baker Books, 1997, p. 24. A frase reflete o argumento central de Sproul sobre a providência e soberania divinas, tema recorrente em suas palestras no Ligonier Ministries.
- LUTERO, Martinho. À Nobreza Cristã da Nação Alemã. In: Obras Selecionadas de Martinho Lutero, vol. 2. São Leopoldo: Sinodal/Concórdia, 1989, p. 282.
- CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. Livro I, Capítulo VI, Seção 2. Calvino utiliza a metáfora do “teatro” (theatrum) diversas vezes para descrever a criação como o palco onde a glória de Deus é exibida para a contemplação humana.
- Para uma análise da ontologia do “olhar” e a objetificação do ser, ver: SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Petrópolis: Vozes, 2015.
- MILTON, John. Sonnet XIX: When I Consider How My Light is Spent. In: The Complete Poems. London: Penguin Classics, 1998. O poema reflete a luta de Milton com sua cegueira e seu desejo de servir a Deus apesar da limitação.
- KUYPER, Abraham. Sphere Sovereignty (Discurso inaugural na Vrije Universiteit, 1880). In: BRATT, James D. (Ed.). Abraham Kuyper: A Centennial Reader. Grand Rapids: Eerdmans, 1998, p. 488.